A graça é a raiz e a santidade é o fruto

Capa Revista VNC 1100

Ao contrário do que muitos imaginam, não existe nenhuma contradição ou oposição entre graça e santidade. Portanto, não tome a verdade do evangelho dessa forma.

A graça é a raiz e a santidade é o fruto. Dessa forma, não alcançamos santidade atuando diretamente nela, assim como não produzimos frutos focando diretamente neles. Antes, lidamos com a raiz, com a planta. Aguamos, adubamos, cuidamos e podamos; então, como resultado, temos o fruto. Primeiro, recebemos revelação da graça, então a santidade vem e se manifesta em nós como fruto da graça (Hb 12.14-17).

Não há santidade sem a graça

Muitos gostam de usar a expressão “sede santos, porque eu sou santo”, mas sem considerar o contexto. Pedro começa falando da graça de Deus e só depois exorta à santidade. Isso significa que não podemos ser santos sem a graça de Deus (1 Pe 1.13-16).

Se as pessoas do Velho Testamento pudessem ser santas sem a graça de Deus, então o Senhor Jesus não precisava ter vindo. Sua morte teria sido em vão. Só no Novo Testamento podemos realmente ser santos.

A graça é a raiz, e a santidade é o fruto. A ordem bíblica é: ande no Espírito e dessa forma jamais satisfará o desejo da carne (Gl 5.16). Mas nós invertemos a verdade, tentamos vencer a carne para só então andarmos no Espírito. 

Se você pensa que primeiro precisa ser santo para só então receber graça, você está dizendo que a graça é uma recompensa. Seria uma recompensa pelo seu bom comportamento. Mas isso é uma contradição, pois a graça é o favor imerecido. A verdade é que eu recebo graça independentemente de minhas obras. E, quando recebo graça, o resultado é obediência espontânea. E, quando obedeço, sou recompensado.

Por isso, Pedro nos exorta a esperarmos inteiramente na graça de Deus que nos é trazida quando temos revelação do Senhor Jesus. Portanto, é a graça que nos leva a vivermos em santidade. Por isso, ouça mensagens que trazem revelação do Senhor Jesus, não pregações sobre o que você deve ou não deve fazer, mas sobre o que Ele é e fez.

Quando esperamos inteiramente na graça, tornamo-nos filhos da obediência e, como tais, não vivemos mais de acordo com as paixões antigas que tínhamos na ignorância. Ignorância de quem? De Cristo. Mas agora recebemos graça na sua revelação.

O oposto de santidade não é pecado, mas é ser comum, ser como todos os outros. A palavra “santo” em grego e hebraico significa “separado” (hagiasmos e kadosh). Não é ser separado no sentido dos fariseus, que se achavam melhores do que o povo, mas é ser colocado à parte, porque você é precioso para Deus.

Diamantes são precisos porque não são comuns. Pedras são comuns. Deus está nos dizendo para sermos incomuns, especiais. Somos cheios da presença e da dignidade do nosso Pai.

Quando o mundo está deprimido, você tem a paz de Deus. Casais do mundo se separam porque o divórcio se tornou comum nos dias de hoje, mas nós somos incomuns e permanecemos casados. Ouse ser diferente e incomum.

Sem santidade, não vemos o Senhor

A exortação do texto é para seguir a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor. Antes de tudo, entenda que a santidade não é para salvação. Não somos salvos pela santidade. Ver o Senhor aqui significa ter revelação d’Ele. Não significa vê-lo fisicamente, mas por revelação no espírito.

Existe uma condição para termos revelação, é a santificação. Quando temos a experiência dos discípulos no caminho de Emaús, vemos o Senhor e temos o nosso coração aquecido.

Isso evidentemente toma tempo. Precisamos investir tempo com o Senhor.

Não se separe da graça

A segunda exortação é: “atentando, diligentemente, por que ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus; nem haja alguma raiz de amargura” (Hb 12.15).

Muito antes que surja uma raiz de amargura, a pessoa já se separou ou decaiu da graça de Deus. E, quando surge uma raiz de amargura, muitos são contaminados.

A pessoa amargurada não causa problemas apenas para si mesma, mas para muitos outros. Especialmente nos dias de hoje em que todos podem se expressar nas mídias sociais, a raiz de amargura é facilmente espalhada.

A amargura é colocada aqui em oposição a seguir a paz com todos. Não queremos guerra e nem animosidade. Queremos ter paz com todos os homens.

A causa de toda raiz de amargura é o afastamento ou separação da graça de Deus. Paulo diz aos gálatas que nos separamos da graça quando tentamos nos justificar pela lei (Gl 5.4). A expressão “desligar de Cristo” também pode ser traduzida como “Cristo não ter efeito sobre a sua vida”. Isso é algo terrível, pois, se você está doente, o que você mais deseja é que Cristo tenha efeito em sua vida. Se você está com lutas financeiras, o que você quer é que Cristo tenha efeito.

O que faz com que o Cristo Todo-Poderoso se torne sem efeito sobre a sua vida? Quando você tenta se justificar diante de Deus pelas obras da lei. É quando você presume que está bem com Deus porque cumpriu os mandamentos. Quando confiamos em nossas obras, decaímos da graça e nos desligamos de Cristo.

Esta é a razão por que os fariseus que se gloriavam de cumprir os mandamentos da lei não puderam receber nada do Senhor Jesus. Tenho certeza que muitos deles estavam doentes, mas nenhum foi curado. Por outro lado, prostitutas, publicanos e todo tipo de pecador receberam graciosamente do Senhor.

Isso foi assim porque decair da graça não é cair no pecado, mas é cair na justiça própria da lei.

Precisamos vigiar, porque a praga do merecimento está sempre nos rodeando e o diabo sempre nos tenta a confiar em nossa carne, em nosso merecimento.

A raiz de amargura

Quando decaímos da graça de Deus, temos como resultado a raiz de amargura. Então, o verso 16 diz:

[…] nem haja algum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado. (Hb 12.16)

Muitos pensam que foi Esaú que tentou se arrepender e não conseguiu, mas não é isso que diz o texto. Ele tentou convencer seu pai, Isaque, a mudar a bênção, mas Isaque não mudou de ideia, de mente, não se arrependeu da bênção que havia dado.

A palavra “arrependimento” é metanoia, que significa “mudança de ideia, de mente”. Na verdade, ele tentou mudar a mente de seu pai, mas não conseguiu.

A palavra “impuro” no grego é pornos, que por acaso nos é bastante familiar. A impureza é tudo o que está relacionado com a pornografia.

O quadro aqui é claro, Esaú se encheu de amargura, tentou matar o seu irmão Jacó e depois se tornou dado à imoralidade sexual. Dessa forma, muito antes de a impureza sexual e a pornografia aparecer, a pessoa já decaiu da graça, separou-se da graça de Deus.

Mas seria possível um cristão decair da graça? Basta lembrarmos que o livro de Gálatas foi escrito para os cristãos. Cristo habitava neles, porém não tinha efeito algum em sua vida.

Os sinais dos que decaem da graça

Mas quais são os sinais de que um crente decaiu da graça? Aqui são colocados dois sinais: se há amargura em seu coração e se há pecado de imoralidade sexual. São dois sinais claros.

Quando estamos cheios de graça, amamos as pessoas espontaneamente, somos pacientes e benignos. Mas, quando decaímos da graça, nossas palavras se tornam cortantes e cheias de amargura.

O segundo sinal de que decaímos da graça são os pecados sexuais. Normalmente, essas pessoas começam assistindo pornografia e terminam tendo relações sexuais ilícitas.

Todos os pastores tentam ajudar o seu povo a vencer esse problema, mas o que normalmente eles fazem é pregar contra o pecado. Entretanto, o que eles não sabem é que a raiz desse problema é que tais pessoas decaíram da graça de Deus. Se não voltarem para a graça, não conseguirão vencer o pecado sexual.

Esta é a razão por que precisamos redescobrir a graça de Deus, pois a santidade é apenas o fruto, a raiz da nossa vida cristã é a graça de Deus.

Vamos ver novamente a sequência do texto. Primeiro, buscamos a paz com todos os homens e a santidade. Então, em oposição a buscar a paz com todos os homens, temos a raiz de amargura. E, em oposição à santidade, temos a impureza, os pecados sexuais. E tudo isso é resultado da pessoa decair ou se separar da graça de Deus.

Em outras palavras, o texto diz: “Atentando, para que ninguém se separe da graça de Deus; senão haverá raiz de amargura e também haverá impureza”. Uma vez que isso acontece, não buscaremos ter paz com todos os homens e nem teremos santidade.

Claramente, vemos que o ponto mais importante é permanecer na graça de Deus. É verdade que Deus é santo, mas não é esta a revelação do evangelho. A verdade é que Deus veio ao homem com a sua graça. A graça é a forma mais elevada de santidade, porque somente a graça pode colocar um Deus santo junto com o homem pecador. Tudo por causa da obra consumada de Cristo.

Por isso, a exortação é para sermos atentos e diligentes para que ninguém se separe ou se afaste da graça de Deus. Decaímos da graça quando transformamos tudo numa relação de troca baseado na obra da lei.

Graça não é algo natural. Eu tenho ensinado sobre a graça há muitos anos e ainda hoje preciso me lembrar constantemente do que é a graça. Sempre sou tentado a pregar de acordo com o que os irmãos merecem ouvir; mas, se faço isso, eu nego a graça. Sou tentado a tratar as pessoas de acordo com o que penso que elas merecem; mas, se ajo assim, decaio da graça.

Se tudo o que faço é baseado no merecimento, estou me afastando da graça.

O exemplo de Esaú

É verdade que Esaú viveu antes da lei, então como ele poderia decair da graça? Ele decaiu da graça tendo uma mentalidade baseada na sua performance. Ele pensava que, sendo um caçador, ganharia o amor de seu pai. Assim, tentou ganhar o amor com obras. Qual foi o resultado disso? Ele caiu na amargura e no pecado sexual.

Provavelmente, ninguém diria que o problema de amargura e impureza sexual é resultado de mentalidade de obras de merecimento. Na verdade, dirão que precisam fazer mais, ter mais obras.

A verdade é que, se você tiver uma revelação fresca da graça de Deus e se encher dela a cada dia, esses problemas vão desaparecer da sua vida sem que se dê conta.

O exemplo do filho pródigo

Em Lucas 15, Jesus contou sobre o filho pródigo e seu irmão. Um filho mais novo pediu ao pai a sua parte na herança. Quando alguém pede a herança com o pai vivo, está dizendo que gostaria que ele morresse.

A Bíblia diz que ele saiu de casa e gastou todo o seu dinheiro de forma dissoluta. Depois que o dinheiro acabou e ele ficou em extrema pobreza cuidando de porcos, ele caiu em si disse: “Na casa de meu pai, os criados têm pão suficiente. Eu vou me levantar e irei até meu pai”. Perceba que ele não voltou porque amava o pai, ele voltou porque estava com fome e percebeu que até os criados tinham pão suficiente. Mas, quando você der um passo em direção a Deus, Ele correrá para você, independentemente da sua motivação. Nenhum de nós veio a Deus porque o amávamos, mas Ele nos aceitou em sua graça.

O bom da história é que depois nos apaixonamos por Ele. Descobrimos como Ele é maravilhoso. Enfim, o filho voltou, o pai correu e o abraçou e o beijou. Ele lhe deu a melhor túnica. Colocou um anel no dedo, matou o novilho cevado e começou a festejar. Havia muita dança e música, porque o filho que estava perdido agora havia sido encontrado.

Eles estavam comemorando quando o filho mais velho chegou e ouviu todo o barulho. Então, perguntaram aos servos: “O que é tudo isso?”

Pessoas legalistas são sempre amargas, não entendem o significado de música e dança, por isso precisam perguntar às pessoas: “O que essas coisas significam?” Para elas, é fogo estranho. Os servos lhe responderam: “O seu irmão voltou para casa e o seu pai fez uma festa”.

E ele se encheu de raiva, uma raiz de amargura. A amargura o impediu de entrar na festa. O seu pai saiu e implorou para que ele entrasse. Então, ele disse: “Eis que há muitos anos venho te servindo. Nunca transgredi um só mandamento, e nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos”. Ele diz: “Eu te sirvo, mas nunca me deste um cabrito”. Ele esperava o pagamento.

Ele diz: “Nunca transgredi o teu mandamento”. Ele é um homem de direito. É um homem que é consciente da lei. Ele vê o pai como alguém exigente. É por isso que ele possui uma raiz de amargura.

E onde está o pecado sexual? Leia o verso 30. “Vindo, porém, este teu filho”. Nem sequer disse: “[…] meu irmão”. “Vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes”.

Se você ler atentamente o texto, verá que a Bíblia não diz que o irmão mais novo gastou o dinheiro com prostitutas. Nós presumimos que ele fez e ele pode muito bem ter feito isso, mas a Bíblia diz apenas que ele gastou o dinheiro vivendo dissolutamente.

Entretanto, de todas as coisas que o filho mais novo fez, o irmão mais velho mencionou somente que ele gastou com prostitutas, por quê? Por que ele está consciente disso? Normalmente, as coisas que acusamos nos outros estão presentes em nós mesmos. Ele se revelou com essa palavra. O filho mais velho possui uma raiz de amargura e provavelmente tem problema com a luxúria e a impureza.

Quanto mais você perceber o amor de Deus e sua graça, mais você será liberto da impureza. Isso não envolverá grandes esforços, mas será algo espontâneo. Você simplesmente será capaz de dizer não ao pecado. Alimente-se da graça de Deus a cada dia e a verdadeira santidade se manifestará em você.

Perguntas para compartilhar:

– Qual a sua percepção a respeito do amor do Pai por você?

– Você está consciente do perdão e do amor incondicional do Pai?

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