Elementos da Multiplicação da Célula

Elementos da Multiplicação da Célula

Em nossa experiência como igreja, temos observado que o cres- cimento acontece de duas formas: podemos ter um crescimento constante ainda que pequeno e podemos ter explosões eventuais. No Livro de Atos vemos que a igreja primitiva também experimen- tava esses dois lados do crescimento. Por um lado Atos 2.47 diz que: “Acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo sal- vos”. Esse crescimento diário não era explosivo, mas eventualmente eles experimentavam essas explosões. Atos 2.41 diz que houve um acréscimo num dia de quase três mil pessoas.

É interessante como esse princípio pode ser observado numa criança. Sabemos que elas crescem todos os dias, mas periodicamente elas têm um estirão e de repente nos assustam com o crescimento. Na vida de uma igreja em células saudável sempre vemos esses dois lados do crescimento.

Evidentemente, o crescimento de uma célula tem aspecto espiritual e certamente deve ser espontâneo. Não fazemos uma célula crescer, apenas identificamos aquilo que está impedindo o seu crescimento. Se uma célula ou uma igreja não está crescendo isso certa- mente é o sintoma de que algo está errado. A falta de crescimento é apenas um sintoma, não é a doença propriamente dita. É preciso dizer que a última coisa que uma igreja deveria fazer quando não está crescendo é uma campanha de evangelismo. Se ela faz uma campanha de crescimento quando está doente vai apenas aumentar a doença e ainda inserirá novos convertidos em um ambiente adoecido, onde certamente serão contagiados.

Quando o crescimento cessa, precisamos parar e fazer uma santa investigação para descobrirmos as causas. Depois de descobrirmos o que está impedindo o crescimento e curarmos a enfermidade então podemos fazer uma campanha ou usarmos qualquer outra estratégia e o crescimento virá espontaneamente.

O trabalho principal do líder é observar constantemente a saúde da célula. Não podemos fazer a célula crescer, mas podemos mantê-la saudável para que ela experimente crescimento constante.

Para isso precisamos compreender os elementos do processo de reprodução da célula. Existem quatro elementos que estão envolvi- dos nesse processo de reprodução: atração, envolvimento, reprodução e multiplicação.

Como líderes de célula, precisamos avaliar e fortalecer cada eta- pa do processo reprodutivo. Se fizermos isso teremos crescimento constante e ainda experimentaremos tempos de explosão.

  •  Atração – Por que as pessoas vêm?
  • Envolvimento – Por que as pessoas permanecem?
  • Reprodução – As pessoas estão sendo treinadas?
  • Multiplicação – Novos líderes foram levantados?

Atração

O que atrai as pessoas para a sua célula? Seja honesto consigo mesmo. A sua célula é um ímã espiritual? Jesus disse que quando fosse levantado da terra ele atrairia todos a si mesmo. Ele se torna- ria um ímã espiritual. Hoje, onde a presença dEle se manifesta os pecadores são atraídos.

O que há em sua célula que pode atrair aqueles que estão fora? Gostaria de colocar algumas possibilidades práticas. Certamente um dos primeiros elementos mais atraentes numa célula é a amiza- de. Para muitas pessoas é fascinante quando elas chegam ali e vêem amizade genuína, um relacionamento vivo entre as pessoas. Isso atrai, é um ímã.

Um segundo fator de atração é um ambiente de família. É maravilhoso quando uma célula se torna uma família, no sentido bom da palavra, não aquele grupo fechado, mas um grupo aberto, receptivo, amoroso, isso também é um ímã. Mas o maior poder de atração certamente é a manifestação da presença do Senhor entre os irmãos. É algo poderoso quando uma célula experimenta curas e outros milagres por causa da oração dos irmãos. Às vezes uma célula ainda não desenvolveu um ambiente tão forte de amizade, mas se há presença de Deus com milagres isso será um poderoso ímã. Não adianta pensarmos que nossa célula terá todos os fatores possíveis de atração. Mas deve haver alguma coisa que atrai. A sua célula tem que ter algum poder de atração.

Há líderes que possuem uma graça especial na palavra, a pre- gação. Há líderes de célula em nossa igreja que, provavelmente, nunca vão estar em tempo integral na obra de Deus, mas que são verdadeiros pregadores, é impressionante.

Outras células praticam a assistência social de uma forma muito forte, é aquele líder que faz de tudo para ajudar os irmãos carentes. Corre daqui para acolá, arruma dinheiro, vai ao governo, vem na igreja, pega no pé do pastor, faz de tudo, se tem um irmão carente. Isso acaba, também, sendo um atrativo.

Muitos são os dons e diversas são as ferramentas que o Espírito Santo nos concede. Ninguém possui todas essas características, mas certamente o Senhor lhe deu algo para servir de isca e atrair os pecadores para sua célula.

O que você tem na sua célula que atrai? Ou será que não existe nenhuma atração. Células que não exercem essa atração magnéti- ca espiritual são disfuncionais. Elas estão fora do padrão do que Jesus estabeleceu. Jesus mostrou que a igreja deve ser um lugar de atração, quando ele usou o exemplo do sal e da luz em Mateus 5. Você pode ser uma luzinha fraca ou você pode ser um holofote ofuscante. Não se preocupe com isso. Não se acuse se você não é aquela grande luz. Qualquer luz é bem-vinda e útil no meio das densas trevas, até mesmo a menor delas. Além disso, a luz não é para se ficar olhando. Olhar luz nos incomoda. O sal também não é para ser percebido. Não temos de ser extraordinário, precisamos apenas ter a realidade de ser sal e luz.

Lembre-se sempre que o que ferve por dentro cheira por fora. Quando o chá começa a ferver, é liberado um aroma e é esse aroma que atrai. O que atrai as pessoas é a ebulição dentro de você. Quando alguém entra em ebulição a vida é liberada. Cheque sua vida. Há fogo do Espírito em você? Líderes incendiados nunca andam sozinhos.

Envolvimento

O primeiro fator de crescimento e multiplicação da célula é a atração. O segundo fator é o envolvimento. Aqui as pessoas preci- sam estabelecer relacionamentos com os membros da célula e cons- truir um envolvimento com a igreja. Também chamamos aqui de consolidação. Consolidar alguém é envolvê-lo. Se você não envolve a pessoa, ela não se consolida.

A vontade de Deus não é apenas que demos frutos, mas que esses frutos permaneçam (Jo 15.16). Temos muitas células que possuem um grande fator de atração. Elas ganham muito. Mas a grande questão é: “As pessoas permanecem?”

Algumas não permanecem porque não suportam o sal. Você sabe que o sal, além de dar sabor, também arde na ferida. Muito sal pode incomodar bastante, na verdade quando é sal demais, ninguém o suporta.

Precisamos de moderação. Temos célula que atrai, mas não envolve, por isso também não cresce. Está sempre com muita gente, mas há um rodízio permanente. Por que as pessoas não permanecem? Não permanecem, porque está faltando o segundo elemento: o envolvimento.

No processo de envolvimento das pessoas na célula precisamos entender que haverá diferentes níveis no processo. O primeiro nível é o envolvimento com as pessoas. Se o novo convertido não fizer amizade, dificilmente permanecerá.

Algumas vezes, as pessoas se convertem primeiro a nós, e só depois se convertem a Jesus. O normal é que primeiro elas façam amizades. Isso precisa ser ensinado aos membros da célula.

Os relacionamentos de amizade são o primeiro nível de envolvimento, mas depois disso vem o segundo nível: o envolvimento em atividades. É preciso envolver o novo convertido em atividades do grupo. Por exemplo, porque não fazer a comunhão da célula na casa do novo convertido? Essa é uma grande oportunidade de envolvimento. Dê a ele a atribuição de organizar a próxima co- munhão na casa dele. Pode ter certeza, ele vai se empenhar para fazer o melhor. Coloque-o na escala do lanche da reunião da célula. Quando você envolve o novo convertido, você o está consolidando na vida da igreja.

O terceiro nível é o envolvimento com objetivos. Em algum momento você terá de dizer a ele: “Nós temos um alvo nessa célula, além de edificar uns aos outros, termos comunhão e serviço mútuo, nós também queremos multiplicar a célula. Portanto, você também deve procurar trazer um visitante para a reunião da célula”. Você não tem de esperar que ele tenha um ano de convertido para isso. Envolva-o nos objetivos da célula, mas, sempre nessa ordem. Primeiro, faça amizade. Segundo, peça a ajuda dele para fazer alguma coisa. Só depois disso, peça para que ele traga um visitante. Ele tem muita gente para trazer, ainda possui muitas amizades lá fora. Ao contrário de muitos nós, que já não temos nem um amigo incrédulo.

O quarto nível de envolvimento é o envolvimento com uma visão e fé. É nesse ponto que ele vai fazer o curso de consolidação, onde vai aprender porque somos uma igreja em célula, o que significa ser uma igreja de vencedores, o que significa cada crente ser um ministro e cada casa uma extensão da igreja. A partir desse momento começamos a compartilhar uma fé comum.

Essa seqüência não é um processo rígido e nem precisa demorar muito tempo para acontecer. O importante é que cada líder tenha clareza da importância do envolvimento ou consolidação.

Reprodução

A terceira etapa é a reprodução. Nessa fase o objetivo principal é o treinamento e o discipulado. O que Paulo disse em sua Segunda Carta a Timóteo é o padrão do avanço do reino de Deus: “E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros” (2Tm 2.2).

Veja se você entendeu. “E o que da minha parte ouviste, através de muitas testemunhas”, Paulo não falou isso em particular, mas em público. “Isso mesmo transmite”. Para homens fiéis. Mas qual que é a fidelidade que se espera dele? A fidelidade de manter o processo e instruir outros. Esse aqui é o processo de reprodução na célula. Nós não multiplicamos células, nós multiplicamos liderança. Se você não está reproduzindo liderança na célula, você não compreendeu a visão apropriadamente. O próprio Paulo é um exemplo do processo. Paulo diz, “O que de mim ouviste”, então Paulo começou. Timóteo ouviu. Ele era o discípulo. E agora Paulo diz: “O que você recebeu, Timóteo, transmite para homens fiéis”. E esses homens fiéis por sua vez vão transmitir para outros. E esses outros, para outros. O propósito de Deus é desencadear um processo, uma reação em cadeia que ninguém pode impedir. Você recebe e passa para outro, que passa para outro, que passa para outro.

Nós temos muitos cursos em nossa igreja, mas os cursos não substituem o discipulado. Curso não forma líderes e nem gera discípulos. A única maneira de se tornar um líder é sendo treinado por outro líder. Se você não anda com um líder, você não se torna líder. E se você não tem ninguém andando com você como discípulo o processo reprodutivo da célula está interrompido. A célula pode até crescer, mas não se multiplicará.

Não pense que o seu trabalho como líder é simplesmente man- dar alunos para o curso de treinamento da igreja. Assim como evangelizar não é só mandar alguém para o Encontro. Cada líder precisa perceber o espírito da obra de Deus e ter o encargo devido.

A ordem de Jesus foi muito clara: “Ide, portanto, fazei discípulos […] ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28.19,20).

A ordem do Senhor é para fazermos discípulos. Como é que os discipulamos? Ensinando-os a guardar. Ensinar a guardar não é ensinar usando curso de treinamento. Não é só ensinar de maneira teórica, é ensinar fazendo, ensinar a guardar é você fazer junto. Você não vai só ensinar ele a orar, você vai orar junto com ele. Você vai ensinar ele a pregar, sim, mas vai pregar junto com ele. Isso é se reproduzir. Você como líder, vai liderar junto com dois ou três discípulos em treinamento que vão compartilhando com você as atividades da célula. O avanço da obra hoje depende da sua seriedade como líder de célula. O seu principal encargo deve ser se reproduzir como líder.

Multiplicação

O último estágio é o estágio da multiplicação. A multiplicação é simplesmente a conseqüência natural dos outros três processos. Não fazemos a multiplicação acontecer. É possível multiplicar uma célula na força humana, mas, esse não é nosso objetivo. Atos

2.42 menciona uma série de coisas que acontecia na igreja e como conseqüência de tudo isso o Senhor acrescentava dia-a-dia os que iam sendo salvos.

Atração, envolvimento e reprodução resultam em multiplicação. Essa geração só será conquistada através de células que se multiplicam. Nosso alvo é que essa multiplicação aconteça uma vez por ano.

Esses quatro elementos podem ser ilustrados na vida de Zaqueu:

Entrando em Jericó, atravessava Jesus a cidade. Eis que um homem, chamado Zaqueu, maioral dos pu- blicanos e rico, procurava ver quem era Jesus, mas não podia, por causa da multidão, por ser ele de pequena estatura. Então, correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque por ali havia de passar. Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa. Ele desceu a toda a pressa e o recebeu com alegria. Todos os que viram isto murmuravam, dizendo que ele se hospedara com homem pecador. Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho de- fraudado alguém, restituo quatro vezes mais. Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido. (Lc 19)

A primeira coisa que vemos é o poder de atração de Jesus. Lembra, a primeira parte do processo é a atração. Zaqueu sentiu uma atração irresistível ao ponto de subiu numa árvore para ver Jesus. O ato de ele subir na árvore fala de atração. Jesus era um ímã extraordinário. Talvez ninguém subirá em uma árvore para ver você. Mas pode, às vezes, encostar o ouvido na janela para ouvir a célula cantando. Isso tem acontecido conosco muitas vezes. Na sua célula tem que haver essa atração. Onde não há atração, nada acontece.

A segunda parte do processo foi que Jesus se dispôs a ir hospedar-se na casa de Zaqueu. Isso é envolvimento. Ele viu Zaqueu e disse: “Zaqueu, eu tenho que ficar na sua casa”. Zaqueu entendeu o que significava isso. Ele teria de ir embora, arrumar o quarto de hóspede, ele sabia que precisaria comprar comida para Jesus e os discípulos. Observa que Jesus o envolveu com a amizade, mas também o envolveu com uma atividade. Ele já podia fazer algo para Jesus. Comer com alguém era um laço de amizade tão claro que as pessoas começaram a falar, chamando- o de amigo de pecadores. Jesus queria envolvê-lo. E todo envolvimento tem seu preço.

Ao chegar à casa de Zaqueu Jesus não foi para um quarto orar até ficar pronta a comida. Creio que Zaqueu se sentou com ele para aprender. Fazendo isso Jesus o consolidou com seu ensino.

O resultado foi o terceiro nível do processo, houve reprodução. A Bíblia diz que Zaqueu, depois de ouvir Jesus ensinando, levantou e disse: “Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais”. Por que ele tomou essa iniciativa? Porque havia aprendido com o Senhor e agora estava agindo como um seguidor de Jesus. Ele foi atraído por Jesus, depois foi consolidado e envolvido, mas por fim ele foi discipulado ao ponto de dar a metade dos bens aos pobres.

A multiplicação pode ser vista porque Jesus disse que a salvação entrou na casa, indicando que toda a família de Zaqueu se converteu e certamente muitos pobres que ganharam o dinheiro também.