Irresistível graça

“Tudo o que você fizer, faça confiado na graça e no favor”

Nestes dias, estivemos ministrando sobre a volta do Senhor e o nosso encontro com Ele no arrebatamento. Certamente, este é um dos assuntos mais empolgantes da Palavra de Deus, mas percebi uma reação inesperada em muitos irmãos. Recebi várias mensagens de irmãos dizendo que tinham medo da volta do Senhor.

Todos nós sabemos que o medo não procede de Deus, mas, na verdade, surgiu quando o homem pecou lá no Éden. Depois de comer do fruto, o homem ouviu a voz do Senhor e teve medo (Gn 3.10). O medo veio por causa do pecado. Quando vivemos conscientes do erro e do pecado, sempre sentimos medo de Deus. Quando, porém, entendemos a verdade do perdão pela graça, todo o medo se vai. João diz que o verdadeiro amor lança fora todo o medo (1 Jo 4.18). O verdadeiro amor não é o nosso amor pelo Senhor, mas o amor d’Ele por nós.

Eu gostaria de usar Pedro como o exemplo de alguém que teve dois encontros com o Senhor. Nesses dois encontros, houve uma pesca miraculosa e, em cada um deles, Pedro mostrou uma atitude diferente para com o Senhor Jesus. Eu diria que ele teve um encontro antes da graça e outro depois da graça. Vamos ver cada um deles para sermos libertos de todo medo de nos encontrarmos com o Senhor.

O encontro antes da graça

O encontro de Pedro com o Senhor na ocasião da pesca maravilhosa não foi a primeira vez que ele havia se encontrado com o Senhor. A primeira vez é relatada em João 1.40-42.

André, o irmão de Pedro, lhe disse: “Ei, Pedro, encontramos o Messias!” Então, ele leva o seu irmão Simão a Jesus. E, quando Jesus pôs os olhos em Pedro pela primeira vez, Ele lhe disse: “Você é Simão, filho de Jonas. A partir de agora, você será chamado de Cefas”, que, em aramaico, significa pedra. Esta foi a primeira vez que Pedro viu Jesus, mas, por alguma razão desconhecida, ele não o seguiu imediatamente. Pedro voltou a pescar e, em seguida, ele se encontra com o Senhor mais uma vez. Nessa ocasião, Pedro ainda não o conhecia bem. Nesse encontro, ele esteve pescando a noite toda, como em João 21, e não havia pegado nada.

Aconteceu que, ao apertá-lo a multidão para ouvir a palavra de Deus, estava ele junto ao lago de Genesaré; e viu dois barcos junto à praia do lago; mas os pescadores, havendo desembarcado, lavavam as redes. Entrando em um dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da praia; e, assentando-se, ensinava do barco as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao largo, e lançai as vossas redes para pescar. Respondeu-lhe Simão: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos, mas sob a tua palavra lançarei as redes. Isto fazendo, apanharam grande quantidade de peixes; e rompiam-se-lhes as redes. Então, fizeram sinais aos companheiros do outro barco, para que fossem ajudá-los. E foram e encheram ambos os barcos, a ponto de quase irem a pique. Vendo isto, Simão Pedro prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador. (Lc 5.1-8)

Quando Simão Pedro viu o milagre, ele caiu de joelhos diante de Jesus, dizendo: “Afasta-te de mim, porque sou um homem pecador, ó Senhor!” Numa das primeiras vezes que se encontrou com Jesus, o que ele viu sobre o Senhor? Ele viu a sua santidade. Sim, o Senhor é santo. Completamente santo.

Uma crítica frequente que ouvimos é que falar para as pessoas a respeito do amor de Deus é muito bom. Concordam que todos devem ouvir sobre a graça, mas isso é muito básico. Depois que se convertem, elas precisam ouvir sobre a santidade de Deus. O que dizem é que começamos na graça, mas depois devemos progredir na santidade. A graça seria o leite, e a santidade, a comida sólida.

Entretanto, o que vemos no evangelho é exatamente o oposto. Nesse primeiro encontro, Pedro viu a santidade, mas, em João 21, ele viu a graça. Aqui a sua reação foi: “Afasta de mim, porque sou pecador”. Mas, em João 21, ele nadou em direção ao Senhor.

Evidentemente, Deus é santo, mas a sua santidade não é mais colocada como era no Velho Testamento, quando Deus era mantido no santo dos santos e o homem era separado de Deus por um grosso véu. Hoje, o véu se rasgou. Deus veio ao homem. No Velho Testamento, a ordem para Moisés foi: “Não chegue para cá” (Êx 3.5). Mas, no Novo Testamento, a ordem é: “Cheguemos, pois, com ousadia” (Hb 10.19).

A fé sempre dirá: “Eu vejo a sua graça e o seu amor”. Mas o homem natural sempre dirá: “Deus é santo. Eu sou um homem pecador. Não posso chegar perto d’Ele”. Por que Pedro disse: “Afasta de mim, porque sou um homem pecador”? Porque ele tinha um senso da santidade mais do que um senso do amor do Senhor.

Todas as pessoas sabem que Deus é santo. Todo homem sabe, instintivamente, que Deus é santo. É algo que não precisa ser ensinado. É por isso que, no Antigo Testamento, toda vez que o Senhor aparecia a alguém, ou um anjo aparecia a alguém, eles tinham medo. Eles falavam como Manoah, o pai de Sansão: “Nós morreremos, vimos o Senhor, vamos morrer”. Gideão também disse: “Eu vou morrer, pois vi o Senhor”.

A santidade de Deus pode ser conhecida pela mente natural, mas a graça de Deus só pode ser entendida pela revelação do Espírito Santo no coração do homem. A verdade, portanto, é que o verdadeiro crescimento espiritual é conhecer o amor de Deus.

O Senhor é santo, mas, acima de tudo, Ele quer que vejamos que Ele nos ama. Você nunca saberá que é amado até entender que essa pessoa vê tudo sobre você e mesmo assim o ama. Nesse momento, você realmente se sentirá amado, pois entenderá o amor incondicional do Pai.

Você já percebeu que nos evangelhos o Senhor nunca usa palavras duras contra cobradores de impostos, prostitutas, adúlteras? As palavras mais severas do Senhor são sempre para os fariseus fanáticos por santidade e justiça própria. Ele os chama de raça de víboras e sepulcros caiados, mas nunca chama os pecadores dessa forma.

Quando pessoas apontam o dedo e agem como fariseus, é porque possuem um senso da santidade de Deus, mas não um senso da sua graça. Os fariseus se diziam guardiões da santidade de Deus, mas crucificaram o Senhor. Mandaram a santidade para a cruz não porque guardavam a lei, mas porque estavam fora dela.

Quando avançamos no conhecimento do amor e da graça de Deus é que realmente estamos crescendo na verdade. Num dos primeiros encontros de Pedro com o Senhor, ele teve um profundo senso da santidade de Jesus, mas agora vamos entender o segundo encontro. A essa altura, Pedro já havia andado três anos e meio com o Senhor e já o conhecia bastante. Mas é no fim, quando Pedro nega o Senhor diante de uma empregada, que ele entendeu a graça. É por isso que, nesse encontro, ele pula na água para encontrar-se com o Senhor. Essa história aconteceu depois da ressurreição do Senhor e, naquele dia, houve também uma pesca maravilhosa.

O encontro depois da graça

Depois disto, tornou Jesus a manifestar-se aos discípulos junto do mar de Tiberíades; e foi assim que ele se manifestou: estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná da Galiléia, os filhos de Zebedeu e mais dois dos seus discípulos. Disse-lhes Simão Pedro: Vou pescar. Disseram-lhe os outros: Também nós vamos contigo. Saíram, e entraram no barco, e, naquela noite, nada apanharam. (Jo 21.1-3)

Durante toda a noite, não conseguiram pescar nada. Muitos de nós estamos numa posição semelhante, na qual temos trabalhado muito, mas não vemos resultado algum.

Provérbios diz que a bênção do Senhor enriquece. Não pense em riqueza aqui apenas no sentido material, existe também riqueza de saúde, de vida, de sabedoria, de relacionamentos, de frutos e muito mais. Depois, o versículo conclui dizendo que com ela não vem desgosto. Mas, no hebraico, seria melhor traduzido como “e ela não vem pelo trabalho árduo, cheio de dores” (Pv 10.22).

É terrível quando trabalhamos muito e não nos sobra nada. Você dá o melhor de si, mas o resultado é decepcionante. Vamos ver algo sobre o Senhor Jesus aqui que pode mudar tudo isso.

Mas, ao clarear da madrugada, estava Jesus na praia; todavia, os discípulos não reconheceram que era ele. Perguntou-lhes Jesus: Filhos, tendes aí alguma coisa de comer? Responderam-lhe: Não. Então, lhes disse: Lançai a rede à direita do barco e achareis. Assim fizeram e já não podiam puxar a rede, tão grande era a quantidade de peixes. (Jo 21.4-6)

É muito interessante que o Senhor tenha mencionado especificamente o lado direito. Na Bíblia, a mão direita é o lado da bênção do primogênito, é o lugar do favor, da justiça. Todo o nosso trabalho é confiado na justiça de Cristo. Tudo o que você fizer, faça confiado na graça e no favor. Lance a sua rede no lado do favor.

No momento em que Pedro percebeu que era o Senhor, ele se vestiu e saltou na água em direção a Jesus. Agora, a minha pergunta é: por que Pedro fez isso? A resposta a essa pergunta vai esclarecer muitas questões em sua vida, especialmente aquelas como “agora que sou salvo, filho de Deus e vejo essas coisas erradas em mim mesmo, como Deus me vê?”

Pedro não pulou na água em direção a Jesus porque estava consciente de suas falhas. Nós sabemos que ele tinha negado a Jesus três vezes alguns dias antes.

Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos. Ele, porém, respondeu: Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte. Mas Jesus lhe disse: Afirmo-te, Pedro, que, hoje, três vezes negarás que me conheces, antes que o galo cante. (Lc 22.31-34)

O Senhor não disse que orou para que Pedro não falhasse, mas Ele orou para que a fé de Pedro não desfalecesse. O Senhor profetizou a vitória de Pedro antes mesmo que ele caísse. Mas o que Pedro respondeu? “Mesmo que todos estes te neguem, eu nunca te negarei. Vou seguir-te até a prisão e até a morte”.

E nós sabemos da história, como ele se sentou à beira de uma fogueira logo depois que o Senhor Jesus foi preso pelos soldados. Em seguida, uma mulher reconheceu o seu sotaque – era um sotaque da Galileia, não era um sotaque de Jerusalém – e lhe disse: “Você não é um dos discípulos dele?” Ele disse: “Não, eu não conheço esse homem”. E, então, outra pessoa veio e disse: “Sim, você é um dos discípulos dele”. Ele nega uma segunda vez, dizendo: “Eu não conheço o homem”. Na terceira vez, a Bíblia diz que ele praguejou e jurou que nunca conhecera Jesus.

Nesse momento, o galo cantou. Quando ele negou conhecer Jesus pela terceira vez, o Senhor se virou e olhou para Pedro. O que ele viu nos olhos do Senhor? Pedro saiu dali e chorou amargamente (Lc 22.54-62).

No entanto, Pedro agora pulou na água e nadou em direção a Jesus. Ele não estava consciente de pecado, mas de perdão. Se você estivesse consciente de pecado, você pularia na água e nadaria em direção àquele que você justamente havia negado? Não. Você pularia para fugir dele, ou pelo menos seria o último a descer do barco. Mas há algo que Pedro viu em Jesus, algo que Pedro sabia sobre o Senhor que o fez pular na água e ir direto para o Senhor. Ele não tinha medo de ficar sozinho com Jesus.

Compreender a atitude de Pedro é muito importante para você em sua caminhada com Deus hoje. Ele pulou porque estava consciente da lei? Não. Pela lei, vem o conhecimento do pecado. A lei o condenará por negar o Senhor Jesus. A lei nunca o capacitará a pular na água para ir a Jesus. Será que Pedro estava consciente da santidade? Claro que não! Ele certamente sabia que havia pecado. A verdade é que Pedro sabia de algo muito poderoso. Ele parecia dizer que “apesar de todos os meus pecados, o homem que está de pé na praia me ama e é meu amigo. Sim, a minha consciência me fala dos meus pecados, mas a minha fé me diz que o meu Salvador ainda me ama”. Há algo muito precioso e profundo em sua ação.

Foi nessa ocasião que o ministério de Pedro foi restabelecido, quando o Senhor lhe perguntou três vezes: “Simão, filho de João, tu me amas?” E o Senhor o encarregou de cuidar daquilo que lhe é mais precioso, as suas ovelhas. Isso significa que Pedro era a pessoa em quem o Senhor mais confiava, pois a ele foi confiado o que havia de mais precioso. Isso não é extraordinário? Ele havia negado a Jesus alguns dias antes, mas agora recebeu a incumbência de cuidar do rebanho mais precioso.

Se acontecesse conosco, não confiaríamos mais em Pedro. Se viéssemos a confiar, seria depois de muito tempo de prova de mudança. Mas, onde abundou o pecado, superabundou a graça de Deus. O que cometeu o maior pecado agora recebeu o maior encargo. A graça é realmente incrível.

A Palavra de Deus nos mostra que, após a ressurreição, Pedro já havia encontrado com o Senhor antes dessa ocasião. Esse encontro não foi registrado no evangelho. Foi algo íntimo entre o Senhor e o seu discípulo. Em Lucas 24.34, lemos que o Senhor havia aparecido a Pedro e, em 1 Coríntios 15.5, o apóstolo Paulo diz que Jesus ressuscitou dos mortos e foi visto por Cefas e depois pelos doze. Cefas é o nome de Pedro em aramaico. Ele foi o primeiro a ver Jesus depois de Maria Madalena. O Senhor restaurou a Pedro naquele encontro. Agora, nas margens do mar da Galileia, Pedro já estava cheio da graça do Senhor. Ele pulou na água porque tinha um grande senso do amor do Salvador por ele, uma consciência de sua graça.

Somente a percepção do seu amor e graça podem fazer Pedro pular e ir direto para o Senhor, sem esperar o barco chegar à praia. Era uma sensação de sua santidade? Não. Jesus é totalmente santo. Ele nunca pecou. No entanto, não foi a percepção da sua santidade que fez Pedro pular na água. De fato, o senso da santidade fará com que você veja ainda mais o seu pecado. Mas o que Pedro percebeu foi amor e graça.

Depois de ver esses dois encontros de Pedro com o Senhor, eu creio que você perceberá o motivo por que você mesmo tem receio de encontrar o Senhor na sua vinda. Talvez você esteja se relacionando com o Senhor sem a graça. Sem a graça, a sua atitude será sempre de fugir, mas se o seu coração for inundado pelo seu amor, então, como Pedro, você vai nadar em direção a Ele. Maranata!

Perguntas para compartilhar:

1. Por que devemos confiar na justiça de Cristo?

2. Como podemos entender a graça de Deus?

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