O Vírus de uma liderança fraca

O Vírus de uma liderança fraca

Em Tiago 5.16 está escrito: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo”.

Em oposição a uma liderança espiritual forte, existe uma lide- rança que é fraca. Assim como uma doença enfraquece o corpo, uma liderança fraca também tem as suas causas. Muitas doenças são causadas por vírus e algumas delas até matam. E é justamente por ignorar a gravidade deles que muitos não se cuidam e morrem. O mesmo acontece na liderança: existem muitos vírus que podem enfraquecê-la, mas existe um que é fatal, o “pecado oculto”, que muitas vezes se esconde atrás de uma liderança aparentemente efi- ciente, mas que, na verdade, já tem as bases corroídas e a sua queda é apenas uma questão de tempo.

O remédio é confessar esses pecados e abandoná-los para que a vitalidade retorne à liderança. O pecado oculto pode levar à queda, mas a confissão dele pode evitá-la. Vamos mencionar alguns tipos de pecados ocultos que corroem a liderança.

A falta de transparência

Perguntou-lhe Eliseu: Donde vens, Geazi? Respon- deu ele: Teu servo não foi a parte alguma. Porém ele lhe disse: Porventura, não fui contigo em espírito quando aquele homem voltou do seu carro, a encontrar-te? Era isto ocasião para tomares prata e para tomares vestes, olivais e vinhas, ovelhas e bois, servos e servas? Portanto, a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua descendência para sempre. Então, saiu de diante dele leproso, branco como a neve. (2Rs 5.20-27)

Eliseu foi um grande profeta que recebeu porção dobrada da unção de Elias. Ele teve um ministério extraordinário em milagres e palavras proféticas. No texto que lemos, Eliseu havia acabado de curar Naamã, comandante do exército da Síria, da lepra. Naamã ofereceu presentes a Eliseu, mas ele recusou. Geazi, seu discípulo, achou que podia aproveitar a ocasião e se beneficiar. Foi, então, atrás de Naamã e recebeu os presentes em nome de Eliseu. Ao voltar, foi confrontado por Eliseu e, embora tenha tido a chance de ser transparente e confessar o seu erro, ele mentiu. Quantas vezes já vimos isso acontecer? Fico pensando se aqueles que agem da mesma maneira, não conhecem essa história da Bíblia. O pecado da falta de transparência começa com coisas pequenas, às vezes um relatório da célula, que por alguma razão o líder não fez e resolve repetir os números no próximo mês. Ao ser confrontado pelo seu discipulador, ele mente e diz que está correto. Alguns fazem isso sem muita conseqüência; outros, se fizerem, perderão sua posição. Por que isso acontece? Porque o que agrava o pecado não é apenas o tipo de pecado cometido, mas a posição em que você está quando o comete. Geazi não era apenas um servo de Eliseu, era seu discípulo, o que deixava subentendido que seria o seu sucessor, aquele que receberia a unção para ser profeta de Deus, para falar da parte de Deus, para representar o povo diante de Deus, o que tornava tudo muito sério.

A falta de transparência na liderança é algo grave. Um diretor de uma empresa pode até mentir sobre algum caso amoroso, mas se um presidente de um país fizer o mesmo, ele pode perder a presidência. Dependendo do grau de liderança, a conseqüência é quase irreparável. Quanto mais perto você anda de pessoas consagradas a Deus, mais as suas falhas virão à tona. O melhor a fazer é reconhecê-las e mudar.

Deus considerou a falta de transparência de Geazi com o pro- feta Eliseu um pecado grave. Ele foi levado pela ganância, o desejo de obter favores materiais através de sua posição. Talvez, se Geazi tivesse confessado a Eliseu o que fizera, quando foi confrontado, Deus o teria poupado. Se não o poupasse da posição, pelo menos o pouparia da maldição.

Creio que hoje muitos têm ouvido essa mesma pergunta: onde estava Geazi? Se esse é o seu caso, escolha andar em transparência. Isso não significa que sua vida deve ser exposta a todos, mas sim que não deve ter nada de que você se envergonhe oculto. Pecados devem ser confessados, problemas devem ser tratados e resolvidos, brechas devem ser tapadas, relacionamentos restaurados.

A falta de transparência na liderança gera conseqüências sérias, como:

  •  Torna você mais vulnerável;
  •  Concede maior poder ao diabo para agir na sua vida;
  •  Pode cegar você;
  •  Apressa a sua queda;
  •  Rouba a bênção de Deus sobre sua vida e de seus descendentes. A maldição de Geazi era sobre ele e toda sua descendência, tamanha foi a gravidade do seu erro. Por isso, no que depender de você, viva na luz, não tenha nada do que se envergonhar. Aprenda a reconhecer suas falhas e confie na graça do Senhor. Para aqueles que são transparentes, Deus libera a sua graça; mas, para aqueles que ocultam os seus pecados, duras são as con- seqüências, como em 2Samuel 22.27: “Com o puro, puro te

mostras; com o perverso, inflexível”.

1. A transparência é fruto de revelação

Antes de ser consumado, o pecado ronda o nosso coração. Jesus afirmou que o diabo nada tinha nele: “[…] aí vem o príncipe deste mundo e ele nada tem em mim” (Jô 14.30). Jesus disse isso porque não havia nenhum desejo pecaminoso no seu coração. O pecado, antes de ser consumado começa a encontrar respaldo no coração, através do desejo errado. Por isso Jesus afirmou que mesmo o olhar impuro já era considerado, aos olhos de Deus, como o pecado de adultério: “Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.28).

A transparência começa diante de Deus. Deus vê coisas no seu coração que você não vê. Se você não é transparente com Deus, também não será com os irmãos. Jesus tratou seus discípulos com a transparência do coração, mesmo quando eles não entendiam isso. Pedro, por exemplo, se considerava pronto para a liderança, mas Jesus disse a ele: Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos. Ele, porém, respondeu: Senhor, estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão como para a morte. Mas Jesus lhe disse: Afirmo-te, Pedro, que, hoje, três vezes negarás que me conheces, antes que o galo cante. (Lc 22.31-34)

Veja, Pedro estava prestes a pecar contra Jesus, negando-o três vezes, mas antes disso, ele se considerava forte. Não percebia o pecado rondando o seu coração, mas Jesus sim. Jesus disse que o diabo estava querendo tentar a Pedro, mas que as suas orações o estavam impedindo. Esse verbo “reclamar” significa “pedir autorização”. O diabo percebia a fraqueza de Pedro e por isso queria agir contra ele. Mas Jesus o guardava, pois sabia que ele ainda não estava pronto. Jesus não estava iludido a respeito de Pedro, mas Pedro estava iludido a respeito de si mesmo.

Quantas vezes você se comporta como Pedro, quantas vezes a sua transparência é só aparente, quantas vezes toma atitudes de valente, disposto a tudo, mas na realidade seu coração é despreparado? Para ser transparente, você precisa da luz de Deus sobre você – sabe por quê? Porque você mesmo não se vê. Você não vê realmente o que esta lá dentro do seu coração. Quando Deus mostra, você fica surpreso e vê quão pecador é.

Precisamos aprender com Pedro. Ele era o mais transparente dos discípulos, mas sua transparência era natural, apenas mostrava uma mente natural, não era fruto de revelação, algo que Deus o havia mostrado. Jesus mostrou para Pedro o que estava no seu coração ao dizer que ele iria negá-lo três vezes, mas Pedro não acreditou, ou seja, não viu o que Deus estava mostrando e continuou com a sua falsa espiritualidade. Por isso, Jesus disse “quando te converteres”, ou seja, quando você retornar do seu pecado, ajude os outros. Jesus já via todo o processo da falta de transparência de Pedro, mas nem Ele pôde evitar que isso acontecesse. E você, quantas vezes tem feito o mesmo?

O verbo “peneirar” significa “sacudir pela agitação interna, tentar a fé de alguém até o limite”. Isso é algo inevitável, mas que só acontece quando você despreza a luz de Deus que vem antes sobre você. Muitas vezes, Deus está mostrando pecados ocultos no seu coração, como o orgulho, a soberba e a rebeldia, mas você não aceita. Então, Deus permite o peneirar, como em situações que, depois de passadas você pensa que, se pudesse, voltaria atrás e as eliminaria da sua vida. É a vergonha do pecado consumado. Peneirar é fundamental quando os outros métodos não funcionam e torna-se a única maneira de você enxergar os pecados ocultos que estão lá dentro e que precisam ser confessados.

Tanto Pedro como Geazi tiveram a chance de confessar peca- dos ocultos diante de uma revelação espiritual, mas nenhum deles confessou. Geazi já havia consumado o pecado da ganância, mas ocultou-o com o pecado da mentira, o que atraiu maldição para si. Pedro, por sua vez, ainda não havia consumado o pecado da traição, mas seu coração estava cheio de soberba e autoconfiança, e ele não viu. Se Pedro tivesse reconhecido sua soberba em achar que podia tudo, até mesmo morrer por Jesus, e reconhecesse dizendo: “É verdade, Senhor, eu estou sendo muito presunçoso, me perdoe”, talvez ele tivesse evitado a queda posterior. Você pode agir diferente se buscar a verdadeira transparência: aquela que é fruto da revelação de Deus em você.

Maledicência

Embora seja um pecado explícito, a pessoa que o comete não percebe que é pecado, pois se tornou um hábito. A maledicência é o hábito de falar mal dos outros. Isso é pecado! A Bíblia diz que Deus abomina a maledicência:

Seis coisas o SENHOR aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos. (Pv 6.16-19)

Quando a maledicência é contra a liderança, torna-se mais grave ainda. É certo que a liderança comete erros e deve ser confrontada em amor por cada um deles. Mas a atitude de falar mal para expor os erros mostra uma motivação errada no coração. Isso atrai a mal- dição para aqueles que cometem esse pecado.

Pior ainda é quando a maledicência está na própria liderança. Vamos ver o exemplo de Miriã. Ela fazia parte da liderança de Moisés, no livro de Miquéias. O profeta cita o seu nome entre aqueles que Deus havia levantado para liderar o povo de Israel: “Pois te fiz sair da terra do Egito e da casa da servidão te remi; e enviei adiante de ti Moisés, Arão e Miriã” (Mq 6.4).

O pecado de Miriã foi falar mal de Moisés e questionar a sua autoridade: “Falaram Miriã e Arão contra Moisés, por causa da mulher cuxita que tomara; E disseram: Porventura, tem falado o SENHOR somente por Moisés? Não tem falado também por nós? O SENHOR o ouviu” (Nm 12.1).

Há três coisas interessantes nesse texto. Primeiro, o nome de Miriã vem antes do de Arão, o que mostra que ela foi a responsável pela conversa. Depois, o texto diz que apenas ela ficou leprosa. Além disso, a questão da mulher de Moisés parece ter sido apenas o estopim, o mais importante nesse texto é o que ela disse em seguida. O trecho “tem falado o Senhor somente por Moisés” significa “tem liderado somente através de…”.

Essa expressão torna evidente que o problema aqui não era a mulher de Moisés, mas sim uma questão de liderança e de autoridade. Miriã estava questionando a autoridade de Moisés, porque Deus falava e liderava também através dela e de Arão. E por último, o versículo termina dizendo: “o Senhor ouviu”. Ora, Deus ouve tudo, com certeza, mas esse trecho significa: “ouviu com interesse, prestou atenção em”. Se Deus fosse dar atenção a tudo quanto é dito pelas pessoas, restariam poucas delas na face da terra. Mas certas coisas Deus ouve e leva a sério. Dependendo do que é dito e por quem é dito, Ele trata imediatamente, como foi o caso de Miriã.

Em Números 12.9, Deus se irou contra Arão e Miriã, mas somente ela ficou leprosa: “E a ira do SENHOR contra eles se acendeu; e retirou-se. A nuvem afastou-se de sobre a tenda; e eis que Miriã achou-se leprosa”, e foi retirada do meio do povo. Moisés orou para que Deus a curasse e a resposta de Deus é interessante: “Respondeu o SENHOR a Moisés: Se seu pai lhe cuspira no rosto, não seria envergonhada por sete dias? Seja detida sete dias fora do arraial e, depois, recolhida”.

É interessante a maneira como Deus responde, Ele se coloca aqui como um pai que disciplina sua filha. Deus tratou com o pecado de maledicência de Miriã como pecado de rebeldia, por isso seu pecado foi exposto a todos.

Entenda isso; quando líderes falam mal de outros líderes, eles contaminam o povo com a maledicência e abrem uma brecha para o espírito de rebeldia. Isso é grave porque contamina o coração e divide o Corpo. Deus não trata esse tipo de pecado em sigilo, Ele expõe! E Ele mesmo se encarrega de remover pessoas desse tipo da posição de liderança.

Coração amargurado

É difícil lidar com pessoas com o coração amargurado, e mais ainda quando são líderes. Por causa da sua influência, o líder acaba contaminando outros com sua mágoa. Dificilmente uma liderança assim prevalece. Atentando, diligentemente, para que ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus; nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados. (Hb 12.15)

Absalão era um filho amargurado com o pai. Como o seu pai era também o seu líder, ele acabou se rebelando contra a liderança de Davi. O fato de Davi não ter tratado com Amnom, seu outro filho, por molestar Tamar, sua filha, gerou em Absalão um sentimento de justiça própria.

Porém Absalão não falou com Amnom nem mal nem bem; porque odiava a Amnom, por ter este forçado a Tamar, sua irmã. (2Sm 13.22)

O clamor por justiça era compreensível, mas Deus espera- va outra resposta de Absalão, a mesma que Davi deu quando se decepcionou com Saul. Davi tinha muito mais motivos para ser amargurado, pois Saul o perseguiu para matá-lo. Absalão, no en- tanto, era amado por Davi e, portanto, suas decepções não eram fruto de ódio e perseguição por parte do pai.

Davi e Absalão se decepcionaram com seus líderes, mas ambos lidaram com a decepção de maneiras diferentes. Davi se humilhou, Absalão se rebelou. Isso ainda é muito comum hoje em dia. Por se decepcionarem com a sua liderança, muitos líderes se tornam amargurados. O espírito que os contamina é o mesmo que conta- minou Absalão – o espírito de justiça própria.

A única maneira de vencer isso é perdoando e abrindo mão da reparação. Enquanto você exige e espera algum tipo de reparação, a mágoa cresce. No dia que você decide sofrer o prejuízo por aquilo que deveriam ter feito, mas não fizeram, ou por aquilo que não deveriam ter feito e fizeram com você, nessa hora você vence. Mesmo que pareça ter sido vencido, é aí que a vitória acontece na sua vida. Sua vitória não é quando você vê Deus tratando com os que te feriram, mas quando você os perdoa.

O maior teste de Davi foi Saul, não Golias. E o de Absalão foi Davi e não Amnom. Precisamos aprender a identificar os testes de Deus na nossa vida, pois a nossa resposta pode nos aprovar ou reprovar na posição a que Deus quer nos levar. Absalão só seria confirmado como herdeiro do trono se tivesse dado a Deus a mesma resposta que seu pai Davi deu. Mas, infelizmente, ele escolheu o caminho errado. Hoje, muitos líderes como ele têm perdido a oportunidade de serem aprovados por Deus e, por causa disso, têm perdido a unção, os frutos, a posição e toda sua herança espiritual.

É interessante observar que a Bíblia não se preocupa em descrever muito a aparência, mas no caso de Saul e Absalão isso aconteceu: “Tinha ele um filho cujo nome era Saul, moço e tão belo, que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele” (1Sm 9.2). “Não havia, porém, em todo o Israel homem tão celebrado por sua beleza como Absalão; da planta do pé ao alto da cabeça, não havia nele defeito algum” (2Sm 14.25).

Saul e Absalão tinham muitas coisas em comum: eram grandes líderes, fortes, bonitos, certamente derrotaram fortes inimigos, e ambos tiveram Davi como teste em suas lideranças. Mas, no mo- mento crucial da liderança, os dois foram derrotados por seus próprios corações – corações amargurados. Ambos tentaram ganhar o trono com as próprias mãos. A Bíblia diz que “a ira do homem não produz a justiça de Deus”. A ira do homem só produz perdas irreparáveis para homens e mulheres de Deus.

Salomão, um líder que veio depois deles, escreveu sabiamente: “Não sejas demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? Não sejas demasiadamente perverso, nem sejas louco; por que morrerias fora do teu tempo?” (Ec 7.16- 17). Com certeza, Absalão morreu fora do tempo, poderia ter sido um grande líder. Mas, ainda hoje, esse mesmo espírito de justiça própria faz vítimas.

Davi, por sua vez, cometeu erros que talvez muitos de nós, como líderes, hoje, não cometeríamos. Ainda assim, ele foi aprovado por Deus. Por quê? Porque em cada teste, ele deu a resposta certa, aque- la que agradou a Deus. Quando pecou, confessou o seu pecado e se humilhou diante de Deus e dos homens.

Erros e decepções fazem parte da vida de um líder. A questão é como cada um lida com eles. Não importa como os testes ve- nham na sua vida, embora normalmente eles tenham nome, CPF e endereço. Lembre-se: rejeite a mágoa no seu coração, abra mão da justiça própria e responda a Deus. Dê a chance a Deus de te exaltar, humilhando-se, pois ele só exalta aqueles que se humilham. Com certeza não faltarão oportunidades para você se humilhar. Aprovei- te cada uma delas e Deus o confirmará.

Orgulho e obstinação

Orgulho e obstinação andam juntos. A obstinação é a expressão do orgulho, pois todo orgulhoso torna-se obstinado. Um exemplo disso é Saul. O orgulho ferido o impediu de discernir em Davi o seu sucessor no trono. A obstinação o fez persegui-lo e também foi a causa de ter sido rejeitado por Deus. Saul foi um grande líder, mas perdeu a coroa por causa de um coração errado. Ele não a perdeu por incompetência, pelo contrário, era um valente excepcional. Davi o descreve como exímio na batalha: “Saul e Jônatas, queridos e amáveis, tanto na vida como na morte não se separaram! Eram mais ligeiros do que as águias, mais fortes do que os leões” (2Sm 1.23).

Deus usou o sucesso de Davi para tratar com o orgulho de Saul. Pois é nos relacionamentos que o orgulho se manifesta: muitas vezes na atitude de achar-se melhor do que o outro e, como con- seqüência, resistir à liderança em vez de reconhecê-la naquele que Deus levanta. A Bíblia diz claramente obstinação é pecado:

Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar. Visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti. (1Sm 15.2)

Olhar altivo e coração orgulhoso, a lâmpada dos perversos, são pecado. (Pv 21.4)

Antes do sucesso de Davi, Saul o amava, mas depois seu coração começou a se endurecer. Na verdade, o orgulho já estava lá, agora estava apenas se manifestando. É assim, que acontece com muitos líderes hoje. Não reconhecem o sucesso de outros líderes, pois isso seria reconhecer que os outros são melhores do que ele. Quando confrontados, apresentam suas justificativas, mas poucos reconhecem o seu orgulho. Saul foi confrontado pelo profeta Samuel mais de uma vez, mas em nenhuma delas demonstrou arrependimento. Pelo contrário, mostrava-se mais orgulhoso ainda, ao se preocupar apenas com o que o povo pensaria dele.

O orgulhoso não tem um coração que possa ser ensinado, e por isso ele se recusa a aprender com outros. O orgulhoso tem um olhar crítico em relação às pessoas, seus comentários têm um teor pejorativo. Ele dificilmente aplaude os outros, porque é difícil para ele re- conhecer o sucesso de outros líderes. Vemos no exemplo do rei Saul que seu coração mudou em relação a Davi a partir do momento em que Davi começou a alcançar reconhecimento por seus feitos: “Daquele dia em diante, Saul não via a Davi com bons olhos; um espírito maligno se apossou de Saul, que teve uma crise de raiva em casa” (1Sm 18.9-10 – resumido).

Reconhecer o orgulho é apenas um lado da questão. Estar disposto a servir outro líder é o outro lado. O obstinado não se dobra diante de ninguém. Por isso, a única maneira de vencer o orgulho é vencendo também a obstinação. Além de arrepender- se, é preciso se humilhar! Jônatas, filho de Saul e herdeiro do trono, tinha um coração e uma atitude completamente diferentes de seu pai. Ele reconheceu Davi como o futuro rei e se colocou ao seu lado para servi-lo:

Então, se levantou Jônatas, filho de Saul, e foi para Davi, e lhe disse: Não temas, porque a mão de Saul, meu pai, não te achará; porém tu reinarás sobre Isra- el, e eu serei contigo o segundo, o que também Saul, meu pai, bem sabe. (1Sm 23.16-17)

Jônatas reconheceu que Davi reinaria no lugar de Saul e não ele. Quando há reconhecimento genuíno, há também arrependimento e mudança de atitude, Jônatas decidiu servi-lo. Isso é humilhar-se. Saul, por sua vez, não se dobrou diante de homens, e nem diante de Deus. Ele não se dobrou diante do profeta ao ser confrontado pelo seu pecado, nem diante de Jônatas, que tentou persuadi-lo a respeito de Davi. E, embora tenha reconhecido que Deus ungira a Davi, continuou com um coração obstinado.

Agora, pois, tenho certeza de que serás rei e de que o reino de Israel há de ser firme na tua mão. (1Sm 24.20)

É fácil falar de Saul, como também é fácil identificar essas atitudes em outros líderes, mas e quanto a nós? Como é difícil tirar a trave dos nossos olhos! Hoje, temos muitos líderes com o mesmo coração de Saul, mas que não sabem que, ao resistir a alguém que recebeu uma unção de Deus, estão resistindo ao próprio Deus. Por isso mesmo, muitos estão sendo removidos por Deus:

Pecando o homem contra o próximo, Deus lhe será o árbitro; pecando, porém, contra o SENHOR, quem intercederá por ele? (1Sm 2.2)

Ser cúmplice do pecado

Era, porém, Eli já muito velho e ouvia tudo quanto seus filhos faziam a todo o Israel e de como se deita- vam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação. (1Sm 2.22)

Eli era sacerdote e ministrava diariamente diante de Deus. O erro de Eli foi honrar mais aos seus filhos do que a Deus, conclusão a que o próprio Deus chegou a seu respeito. Por quê? Porque Eli não confrontou o pecado deles, antes o encobriu. Mesmo sabendo que seus filhos não eram retos diante de Deus, Eli permitiu que eles continuassem ministrando diante dEle.

E, tu, por que honras a teus filhos mais do que a mim, para tu e eles vos engordardes das melhores de todas as ofertas do meu povo de Israel? (1Sm 2.29)

Embora Eli não tivesse cometido o mesmo pecado que seus filhos, Deus tratou com Eli duramente. Isso mostra como Deus considera séria a cumplicidade do erro. Ser cúmplice do pecado de outro é saber e deixar de confrontar. É concordar com o erro silenciando-se a respeito dele. Tenha cuidado: uma coisa é ser omisso, outra é sair falando para todo mundo. Paulo orienta a confrontar a pessoa; se ela não aceitar, levar outra testemunha e por fim, levar ao presbitério da igreja, ou seja, ao pastor dessa pessoa. Isso mostra que há uma maneira correta de confrontar o erro, sem precisar ex- por para todo mundo.

Voltando à questão da omissão, além de não tratar com o pe- cado, o ato cometido, a omissão tem duas conseqüências sérias. A primeira é o escândalo. Jesus disse que o escândalo é pior do que a morte, em alguns casos: “Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afoga- do na profundeza do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!” (Mt 18.6,7). Há casos em que o escândalo é inevitável, mas em outros não.

A outra conseqüência da omissão é a herança que esse pecado deixa. Sabemos que a maldição é resultado de pecados cometidos por antepassados. São pecados que não foram tratados e deram legalidade espiritual para o diabo agir na vida de outras pessoas. Ao tratar com Eli e toda sua descendência, Deus estava tratando com o pecado da omissão de Eli, da profanação das coisas sagradas, do escândalo que isso causou e também da maldição familiar. Deus não poderia impedir que o sacerdócio fosse imundo e que outros sacerdotes, posteriormente, pelo mau testemunho que tiveram, fizessem o mesmo. A conseqüência por essa omissão foi terrível para Eli e sua casa. O sacerdócio era passado de pai para filho, mas no caso de Eli, toda a sua casa foi rejeitada por Deus.

O homem, porém, da tua linhagem a quem eu não afastar do meu altar será para te consumir os olhos e para te entristecer a alma; e todos os descendentes da tua casa morrerão na flor da idade. (1Sm 2.33)

Veja como isso é sério. O pecado da omissão gerou morte. Podemos ver isso acontecendo hoje, não de maneira literal, mas na reprodução de líderes problemáticos. É possível reproduzir tanto uma liderança espiritual como também uma liderança fraca e carnal. Isso acontece quando pecados não são confrontados e tratados corretamente.

Não te tornes cúmplice de pecados de outrem. Conserva-te a ti mesmo puro. (1Tm 5.22)

Sacrifícios com defeito

Eram, porém, os filhos de Eli filhos de Belial e não se importavam com o SENHOR; pois o costume daqueles sacerdotes com o povo era que, oferecendo alguém sacrifício, vinha o moço do sacerdote, estando-se cozendo a carne, com um garfo de três dentes na mão; e metia-o na caldeira, ou na panela, ou no tacho, ou na marmita, e tudo quanto o garfo tirava o sacerdote tomava para si; assim se fazia a todo o Israel que ia ali, a Siló. Também, antes de se queimar a gordura, vinha o moço do sacerdote e dizia ao homem que sacrificava: Dá essa carne para assar ao sacerdote; porque não aceitará de ti carne cozida, senão crua. Se o ofertante lhe respondia: Queime-se primeiro a gordura, e, depois, tomarás quanto quiseres, então, ele lhe dizia: Não, porém hás de ma dar agora; se não, tomá-la-ei à força. Era, pois, mui grande o pecado destes moços perante o SENHOR, porquanto eles desprezavam a oferta do SENHOR. (1Sm 2.12)

A Bíblia mostra em muitas passagens que a oferta do sacrifício tinha que ser sem defeito: “Não sacrificarás ao SENHOR, teu Deus, novilho ou ovelha em que haja imperfeição ou algum defeito grave; pois é abominação ao SENHOR, teu Deus” (Dt 17.1).

Era uma exigência de Deus para receber a oferta, pois o animal do sacrifício apontava para Jesus na cruz. Mas a maneira como o sacerdote agia em relação ao sacrifício também era importante.

Deus não faz acepção de pessoas, mas Ele faz acepção de ofertas. O sacrifício com defeitos nos fala de fazer a obra de Deus relaxadamente. Hofni e Finéias, filhos de Eli, eram sacerdotes e ofereciam sacrifícios diante de Deus, mas o seu comportamento era reprovável, pois agiam com desprezo pelas coisas sagradas.

Gostaria de mencionar três atitudes que demonstram um sacrifício com defeito. A primeira é o desprezo, como cita o texto. A presença de Deus é sagrada, mas pode ser desprezada. Aqueles homens tinham obras, mas não tinham o coração para agradar a Deus. Eles faziam o serviço, mas não se importavam com Aquele que recebia a oferta. É possível estar na posição de liderança e desprezar a presença de Deus. Vamos entender isso definindo o conceito de desprezo.

Desprezar a Deus é não dar importância àquilo que Ele dá. É fazer pouco caso em relação a algo relevante a Sua obra. Alguém pode dirigir louvor e ignorar a presença de Deus, pode pregar e desprezar a revelação de Deus, pode liderar uma célula e não valorizar as pessoas que estão lá.

Em Colossenses 3.23 diz: “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens”. Tudo que é feito na obra de Deus tem como alvo agradar a Deus. Quando alguém va- loriza a presença de Deus, busca ser sensível a ela e se torna cuidadoso com aquilo que faz, seja na hora de louvar, de ministrar a palavra, na liderança, no ofertar, no falar, na sua vida de oração, na sua pontualidade aos cultos, na reverência ao ouvir a Palavra, etc. Quantos descuidos temos tido por não sabermos valorizar a presença de Deus?

Não basta fazer coisas para Deus, você precisa se certificar de que aquilo que você faz está sendo aceito por Ele. Devemos fazer da maneira que agrada a Deus e não a nos mesmos. Desprezamos a Deus quando não nos preocupamos em valorizar aquilo que Ele valoriza.

O desprezo não está associado apenas à obra, mas também às pessoas. Os filhos de Eli não se preocupavam em dar mau testemunho porque não valorizavam as pessoas. É possível liderar pessoas sem valorizá-las. Um exemplo clássico são as células de crianças. Alguns pensam que liderar uma célula de crianças é algo sem importância e por isso desprezam esse trabalho. Quando alguém toca no assunto é quase uma ofensa para essa pessoa. O que existe em seu coração, na verdade, é desprezo, pois considera as crianças sem valor diante de Deus.

O desprezo mostra um coração egoísta, que busca fazer apenas aquilo que lhe agrada e não realmente o que é a vontade de Deus. A vontade de Deus não é uma questão de escolha pessoal e sim de obedecer a Palavra e fazer para Ele e não para homens. Vemos que os filhos de Eli faziam a obra de Deus, mas sua atitude era egoísta, se preocupavam com seus próprios interesses carnais. Não havia nenhum interesse em fazer para Deus ou em abençoar as pessoas.

O desprezo se esconde, às vezes, atrás de um amém: amém, irmão, amém! Ou seja, não estou interessado em sermão! É complicado quando isso é corriqueiro na vida de um líder, pois líderes são chamados para investirem na vida de outras pessoas, pelas quais Jesus morreu.

Outra maneira de fazer a obra de Deus relaxadamente é com indiferença.

A Indiferença é o desinteresse. É não se interessar pelos resultados da obra de Deus. É aquela atitude assim: se acontecer, aconteceu! Mas, se não acontecer, fazer o quê? Como exemplo, podemos ter um líder de célula que age com indiferença em relação aos Encontros de Evangelismo: ele até tenta levar alguém, mas não dá certo e ele larga para lá. Quando chega o batismo, sua atitude é também de indiferença: se batizar, tudo bem, mas se não batizar, para ele não faz diferença. Ou seja, ele não se interessa de fato pela salvação de almas.

A maneira como um líder age em relação às pessoas mostra se ele ama ou se é indiferente. Um pai que ama os seus filhos abre mão de comprar um filé para comprar um litro de leite. Ele pensa primeiro no filho e no que ele precisa, depois nele mesmo. Agir com indiferença é ignorar as necessidades das pessoas. As pessoas na célula precisam de Deus, e o líder é a pessoa que deve ajudá-las a conhecê-Lo e se relacionar com Ele.

O sacerdócio é para servir aos outros e aos propósitos de Deus. Muitos, por não terem o título de líder, agem também com indiferença. Ela pode ser percebida também no líder em treina- mento, ou na esposa do líder ou do pastor que, por não terem o título, se excluem do encargo. Indiferença é pecado, não importa se ela vem com título ou não.

O fazer relaxadamente é fazer sem encargo. É dar o que sobra. É fazer para constar. É não se preparar para liderar. É fazer de qual- quer jeito, achando que Deus vai gostar. É ser relaxado no cuidado dos irmãos e descuidado no trabalho da obra de Deus. O que a Bíblia diz sobre isso? “Maldito aquele que fizer a obra do SENHOR relaxadamente” (Jr 48.10).

Não basta liderar, é preciso liderar da maneira de Deus. Líderes relaxados não valorizam a oração, não se desgastam em jejuns, não se comprometem com os cultos da igreja, não têm o encargo de levar seus liderados a viver a vida comum da igreja, deixam cada um por si. Alguns ainda pensam estar fazendo muito. Ele converteu o coração a Jesus, mas não converteu aos irmãos, nem à sua liderança.

O relaxado não tem compromisso com ninguém. Vai às reuniões quando quer, chega na hora que quer, não se preocupa em prestar contas a ninguém. Ele é independente. Por isso mesmo, faz relaxadamente, pois não recebe instrução e não tem o encargo de preparar outros. Seu padrão de vida cristã e liderança são medíocres.

Para alguns, o fazer relaxadamente é percebido na avareza. Vamos ver o que a Bíblia diz sobre isso: “Pois maldito seja o enganador, que, tendo um animal sadio no seu rebanho, promete e oferece ao SENHOR um defeituoso; porque eu sou grande Rei, diz o SENHOR dos Exércitos, o meu nome é terrível entre as nações” (Ml 1.14).

O avarento é mesquinho. A avareza está, em geral, associada ao dinheiro, mas há outras maneiras de ser mesquinho, como no tempo com Deus. Para alguns, o lazer merece um dia inteiro, mas para a oração, vinte minutos é o suficiente. Na disposição para fazer a obra de Deus: quando é o trabalho secular, não mede esforços; mas, para fazer algo para Deus, a igreja exige demais. Ser mesquinho é quando você tem para dar, mas dá o pouco ou o pior. Às vezes é um profissional que na empresa dá um show no departamento, mas na liderança da casa de Deus é negligente, porque não tem disposição para dar de si e abençoar os irmãos. Você pode ser avarento para Deus com dinheiro, com o seu tempo, com a sua disposição. O avarento não é aquele que não dá, mas o que dá o pouco ou o pior, ou seja, que faz relaxadamente.

Aqueles que não valorizam a obra de Deus sempre a fazem relaxadamente, porque dão o que sobra e não o que Deus quer. Fazem aquilo que somente agrada a eles mesmos e não o que realmente agrada a Deus. O seu trabalho tem pouco ou nenhum valor diante de Deus. Têm a aparência de servo, mas seus corações estão cheios de pecado. Esses pecados ocultos minam a sua comunhão com Deus e seus frutos são tenros e quase nunca se manifestam. Líderes avarentos não crescem.

Tendo Samuel envelhecido, constituiu seus filhos por juízes sobre Israel. O primogênito chamava-se Joel, e o segundo, Abias; e foram juízes em Berseba. Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos, e perverteram o direito. (1Sm 8.2,3)

Os pecados roubam os frutos

A conseqüência dos pecados ocultos na liderança é uma liderança fraca e estéril. Os pecados roubam os frutos. São pessoas que não recebem nada de Deus, porque não valorizam a benção de Deus. Pelo contrário, atraem o juízo de Deus para si e geram morte em vez de vida. Uma liderança assim não pode ser reproduzida. Precisa, isso sim, ser erradicada do nosso meio.

Aqueles que são líderes na casa de Deus devem honrar a Deus na sua liderança. Há uma promessa para esses líderes; “[…] porque aos que me honram, honrarei, porém os que me desprezam serão desmerecidos” (1Sm 2.30).

Aqueles que Deus honra são aqueles que respondem ao padrão estabelecidos por Deus: “[…] sacerdotes fieis de mente e de coração!” (1Sm 2.35).